Economia global em alerta: nove países estão à beira da recessão
O poeta John Donne escreveu: “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente”. A quarta-feira de pânico nas bolsas de todo o mundo no último dia 14/08, mostrou que a máxima vale também para os países, restando saber quanto tempo a economia americana poderá se manter sólida enquanto as outras nações se batem num mar revolto.
O péssimo dia nas bolsas começou depois da circulação de notícias ruins envolvendo as duas maiores economias globais. A China reportou o pior desempenho industrial em 17 anos, enquanto a Alemanha informou que a economia encolheu nos últimos meses. Não são problemas isolados. Além da desaceleração da China, outras nove grandes economias estão em recessão ou à beira da recessão.
Muitos desses países têm um problema em comum: são extremamente dependentes das vendas ao exterior. E os tempos não estão bons para as economias voltadas ao ultramar. O tombo da China e a guerra comercial de Trump estão solapando a troca de bens que foi o motor da economia global por décadas, e vários países se deparam com forte declínio nas exportações.
Em outras nações, notadamente na Argentina e na Rússia, velhos problemas domésticos voltaram a entrar em erupção num momento em que os investidores internacionais estão nervosos e prontos para bater em retirada, o que acaba exacerbando os problemas.
Na medida em que as dificuldades se avolumam, não há muitas opções de botes salva-vidas por perto, o que explica a fuga dos investidores para os costumeiros refúgios: ouro e títulos do governo.
China vai tentar estimular economia
“Vejo fogueiras por toda parte, mas não muitos bombeiros”, diz Sung Won Sohn, professor de economia da Loyola Marymount University e presidente da SS Economics.
A China adotará, provavelmente, novas medidas para tentar estimular a economia, tendo em vista que em outubro comemorará o 70º aniversário da fundação de sua República Popular por Mao Tsé-Tung. Vários bancos centrais, incluindo o Federal Reserve (americano), estão cortando as taxas de juros – alguns países têm inclusive taxas negativas – numa tentativa de estimular as pessoas a gastar e a fazer empréstimos. Mas os economistas veem um efeito limitado, porque já há muita oferta de dinheiro barato no mercado internacional.
Por ora, os consumidores americanos são os que mais ajudam a segurar as pontas da economia global. Mas Trump vem aplicando mais tarifas em itens que os americanos gostam de comprar da China: roupas, celulares, TVs e brinquedos. Ele adiou algumas dessas sobretaxas para não interferir com as compras de Natal, mas preços mais caros estão a caminho, aumentando o desconforto e as incertezas globais.
“Na lista de maneiras de ajudar a economia, mais previsibilidade e estabilidade no comércio, por parte de Trump, estão em primeiro, segundo e terceiro lugares”, aponta Vincent Reinhart, economista-chefe da BNY Mellon Asset Management.
Trump está certo quando diz que outras nações dependem mais do comércio do que os Estados Unidos – as exportações representam apenas 13% da economia americana, enquanto o consumo interno alcança 70%. Mas Trump está próximo de testar os limites de quanto os EUA podem resistir sozinhos, na medida em que os problemas se agravam em outras partes do mundo.
Confira, abaixo, uma lista das principais economias enfrentando risco de recessão.
Alemanha
A economia alemã encolheu 0,1% no segundo trimestre, depois de um crescimento anêmico de apenas 0,4% no início do ano. Dois trimestres seguidos de crescimento negativo caracterizam uma recessão técnica, e a Alemanha está quase lá, espalhando temores de que chegará oficialmente a essa condição no final do ano. A Alemanha é bastante dependente da indústria automotiva e de outros bens industriais, tradicionais motores de sua economia. O problema é que a maior parte do mundo, inclusive os EUA, enfrenta no momento uma recessão na área industrial. Até agora, o governo alemão, famoso por sua austeridade, tem relutado em aumentar os gastos para estimular o crescimento.
Reino Unido
A situação da Grã-Bretanha é parecida com a da Alemanha: a economia encolheu 0,2% no segundo trimestre, na sequência de um fraco crescimento de 0,5% no início do ano. Entre os maiores obstáculos à indústria está uma queda acentuada nos investimentos, devida, em grande parte, às incertezas sobre o Brexit. Se o Reino Unido sair da União Europeia em outubro sem um acordo, há expectativas de que a recessão acabe se instalando oficialmente.
Itália
A terceira maior economia da zona do Euro, que já vinha se debatendo há vários anos, passou por recessão em 2018. O crescimento no segundo trimestre foi de apenas 0,2%, e há preocupações de que passe a ser negativo, já que a Itália vende muitos bens manufaturados à Alemanha, que não está em sua melhor forma. A Itália também luta com uma crise política prolongada que torna difícil alguma intervenção econômica do governo. O primeiro-ministro Giuseppe Conte vai enfrentar uma moção de não-confiança no Senado até o final do mês, e pode ser forçado a renunciar. A dívida da Itália é uma das maiores do mundo.
México
O vizinho austral dos Estados Unidos também tem sido alvo das batalhas comerciais e da política anti-imigração do governo Trump, que parecem estar causando mais danos do que se imaginava. A economia mexicana retraiu 0,2% no início do ano e escapou por pouco de uma recessão técnica no segundo trimestre, ao crescer apenas 0,1%. O México também enfrenta um declínio nos índices de investimento e de confiança, diante dos temores empresariais de que o presidente Andrés Manuel López Obrador decida nacionalizar algumas indústrias.
Brasil
A maior economia da América do Sul encolheu 0,2% no primeiro trimestre e a expectativa é de que apresente crescimento negativo na divulgação dos dados do segundo trimestre, no final deste mês, o que caracterizaria uma recessão. O país luta para se manter competitivo nas exportações e tem enfrentado desaceleração no consumo doméstico. Imaginava-se que o Brasil seria beneficiado pelo fato de a China buscar alternativas aos EUA para fornecimento de soja e outros produtos, mas o declínio dos preços das commodities frustrou as expectativas. O Banco Central cortou as taxas de juros e o presidente Jair Bolsonaro está liberando dinheiro de contas do FGTS para tentar estimular o crescimento.
Argentina
A Argentina está em crise. Já se encontra em recessão e as coisas podem piorar. Na segunda-feira, a Bolsa de Buenos Aires caiu quase 50%, o segundo maior tombo já registrado em um mercado de ações desde 1950. O país enfrenta inflação crescente e o presidente Mauricio Macri foi derrotado nas primárias da eleição presidencial. Os investidores temem que a Argentina não consiga pagar suas dívidas; a classe média receia não ter poder de compra para produtos de necessidade diária, diante da queda livre do peso, especialmente na comparação com o dólar.
Singapura
A nação asiática informou na terça-feira(13) que sua economia recuou 3,3% no Segundo trimestre, um declínio acentuado em relação ao crescimento do trimestre anterior, de 3%. Singapura culpa a guerra comercial entre EUA e China por seus problemas, já que tem uma economia altamente dependente das exportações. Muitos economistas olham para Singapura e para a Coreia do Sul como fortes indicadores do que está por vir na economia global, justamente pelo intenso comércio com outros países, inclusive com a China e os EUA.
Coréia do Sul
A Coreia do Sul conseguiu driblar a recessão no primeiro semestre, por pouco. No início do ano, a economia sul-coreana encolheu 0,4%, mas voltou a crescer 1,1% no trimestre seguinte, um desempenho inesperado que muitos analistas estimam que não se sustentará. O Japão e a Coreia do Sul estão no meio de uma guerra comercial particular que deve penalizar o crescimento econômico e dificultar a venda de eletrônicos e carros coreanos mundo afora. O banco central da Coreia do Sul diminuiu os juros, mas a medida pode ser insuficiente. As exportações de eletrônicos recuaram 20% nos meses recentes, com destaque para os semicondutores, com queda de 30%, segundo o ING.
Rússia
Um instituto de economia russo alertou na semana passada que o país poderá entrar em recessão até o final do ano, após um modesto crescimento de 0,7% na primeira metade de 2019. A Rússia luta desde 2014 com a queda nos preços do petróleo e com embargos de outros países devido à sua ação militar na Ucrânia. O governo russo tem procurado blindar a economia, tanto quanto possível, contra as sanções americanas, colocando limites às transações com Washington e ao uso de dólares. Isso aumentou a dependência da China, que agora também desacelera. O país também tem aumentado suas reservas internacionais, o que deixa pouco dinheiro para tentar estimular a economia.
Sinais Recessivos
Em julho, o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou as projeções para o PIB de vários países, incorporando os sinais negativos que as economias vêm apresentando neste ano.
Fonte: FMI, Gazeta do Povo e institutos de estatísticas nacionais.
Limites para o "colchão" dos EUA
No momento, a economia dos EUA se fundamenta no setor de serviços e na demanda interna, que provê alguma proteção contra as agitações além-mar. Mas há limites para este colchão protetor. Na medida em que os outros países enfraquecem, os investidores globais compram títulos do tesouro americano, podendo inverter a curva de juros, o que é um sinal de recessão e um alerta de que o pânico costuma cruzar fronteiras.
“Há possibilidade de uma recessão nos EUA, não por causa da curva de juros em si, mas devido às políticas comerciais lunáticas e aos danos que elas causam”, afirma Ian Shepherdson, economista-chefe da Pantheon Macroeconomics.
Por: The Washigton Post e Gazeta do Povo